23 outubro 2005
Deleite a sua bunda
(Ygor Speranza)
O título deste texto pode ser um pouco enganador. Se você clicou aqui por que leu “Dê leite à sua bunda”, na intenção de ler um tratado sobre o homossexualismo ou uma discussão científica sobre cálcio e flacidez das nádegas, não não. Procure saciar sua sede pervertida em outro lugar, bunda-mole.
Esse texto na verdade vem tratar sobre causas maiores. Discorre sobre o egoísmo da sociedade contemporânea e sobre o frágil contrato social do cotidiano que tacitamente assinamos ao embarcar nos meios de transportes públicos de massa (ônibus e metrô). Esse texto tenta reafirmar todo ser humano como arauto da hipocrisia, inepto a enxergar além do véu de mentiras e da fachada de boas maneiras que erguemos ao nosso redor.
Desde que somos crianças, somos ensinadas boas maneiras. Regras de conduta na sociedade. É-nos dito que é assim que a sociedade funciona, e que sem elas, seríamos bárbaros pelados tendo relações incestuosas. Sem querer analisar se isso seria bom ou não, eu tento dizer que se você está sendo gentil, ou bem educado, não o faz pois foi educado assim e quer o bem estar da sociedade. Muito menos por que se preocupa com o conforto do alvo de sua caridade. Você se faz de bonzinho para você mesmo.
O único motivo pelo qual você faz algo de bom é por que você vai se sentir bem. Lá dentro, seu boiola, você está pensando: “Putaquepariu, como eu sou educado!”, enquanto olha para as pessoas a sua volta com cara de eu-sou-foda-pra-caralho. Fica com aquela cara babaca de missão cumprida, como se não fosse na verdade um grande otário por trás da máscara de etiqueta.
Um belo exemplo disso é quando, por exemplo, em um ônibus ou metrô, você se oferece para segurar a bolsa, ou pasta ou mochila da pessoa mais próxima. É claro que você só faz isso se a pessoa for do sexo oposto. E acima dos seus pré-requisitos. O maluco pode estar com uma mochila de alpinismo do seu lado, mas você grita meio ônibus abaixo para a gostosa lá, oferecendo-se para segurar sua caneta. Na verdade, você queria perguntar se ela quer sentar no seu colo, mas as estúpidas regras da sociedade dizem que isso é feio e bobo. Se um cara se oferece para pegar a minha mochila ou o que for, eu já penso “ih, qué me dá”, no mais cristalino português coloquial, e recuso a gentileza.
O ser humano é egoísta e escroto por natureza. Por isso nós somos a espécie dominante desse planetinha vagabundo. Se você se acha educado, esqueça: você é um qualquer, só que um daqueles que acredita que consegue se fazer menos infeliz por seguir certas regras.
Por exemplo, muitos resolvem respeitar os mais velhos. Posso mostrar dois argumentos que podem fazer você mudar de idéia. Primeiro: esse investimento da sua “bondade” nunca vai dar retorno. Esses cidadãos seniores estão praticamente com seus andadores e suas fraldas geriátricas enterradas a sete palmos. É apostar no azarão. Já muitas pessoas o fazem na vã esperança de quê vão passar pela mesma situação quando eles estiverem por sua vez caquéticos. Ledo engano. Sem considerar que a chance de se ultrapassar os quarenta cada ano estreita mais, semelhante ao respeito dos mais jovens com os mais enrugadinhos. No futuro, você provavelmente vai ficar em pé no ônibus voador, o que provavelmente lhe fará bem, já que provavelmente você terá hemorróidas.
Se você chegou até aqui e pretende ser um ignorante sem educação a partir de agora, muito bem. Porém, muitos encontram problemas nessa transição de pessoa normal para escroto grosseiro inescrupuloso. Aqui vão algumas dicas para evitar represálias de estranhos ao não ceder seu lugar para idosos ou grávidas.
O Sonolento: quando você perceber que tem velhinhos a caminho, feche os olhos e finja que está dormindo. Se quiser adicionar veracidade a sua atuação, faça corpo mole e se jogue em cima do passageiro sentado ao seu lado. Tente dar uma babada, não faz mal. Essa é uma boa tática por que, de olhos fechados, você evita contato visual com os idosos com cara de bunda e com os olhares de reprovação dos outros hipócritas sem assento.
O Livro: Fingir que está lendo (e é claro que você não precisa adquirir conhecimento de verdade, só mexa os olhos e vire a página ocasionalmente) funciona muito bem. Faça cara de quem está com problemas para entender o que está escrito, como se aquilo fosse de alguma forma importante.
O Disc-man: Fingir que está escutando música também é uma boa tática. Coloque fones de ouvido e fique balançando a cabeça para cima e para baixo, nunca olhando para o elenco de Cocoon que entrou no metrô. Um toque especial para os mais miseráveis: o fone nem precisa estar ligado a um disc-man/walk-man/mp3-player. Coloque apenas a ponta do fio que não vai até a sua cabeça dentro do bolso, ou dentro da sua mochila/pasta/cú. A tática do fone de ouvido ainda impede que você ouça as reclamações das pessoas indignadas, se é que você liga pra isso.
O Mongolóide: para muitos essa é a mais fácil, e fazem até sem querer. Faça cara de retardado. Simples. Dependendo da sua habilidade (inata ou não), até te cederão um lugar.
O Doente: Se você parece doente, não vão querer te incomodar no teu sofrimento. Espirre, catarre, tussa, fungue, salive; sinta-se em casa. Existe uma variante dessa, o Porcão. Tire meleca, coce o saco, libere uns peidinhos. Provavelmente vão reclamar de outros problemas, e esquecerão do seu lugar.
Boa sorte!
postado às 16:46
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O Textículoos:
Tudo começou em 2003 quando a edição do jornal do Colégio Pedro II da Tijuca caiu em
mãos erradas. O Textículoos foi lançado em edição única e nem chegou a circular por
motivos financeiros - os outros filhos da puta do grêmio roubaram o dinheiro -, mas
ainda assim foi exposto nas paredes do colégio e teve a atenção merecida.
Nele continham textos dos mesmos quatro indivíduos, que hoje aqui se
apresentam em versão virtual com o mesmo propósito - nenhum.
A diversão nem sempre é garantida, mas na falta do que fazer, né?
Os escritores:
Nome:
Alex T. Matos
Idade:
19
Ocupação:
Engenharia de Controle e Automação
Instituição:
CEFET/RJ
Nome:
Ygor Speranza
Idade:
19
Ocupação:
Matemática Aplicada
Instituição:
UFRJ
Nome:
Marcus Peres "Vivi"
Idade:
20
Ocupação:
História
Instituição:
UFRJ
Nome:
Rodrigo Pereira
Idade:
20
Ocupação:
Psicologia
Instituição:
UFRJ
Arquivo:
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